A soja deve entrar na quinta-feira em Chicago tentando medir se a alta dos últimos pregões ainda tem força para continuar ou se o mercado já entrou numa fase mais propícia a realização de lucros. Depois do rali puxado por compras chinesas, preocupação climática no Meio-Oeste e avanço do óleo de soja, os contratos perderam força na quarta-feira, mas sem devolver de forma mais agressiva os ganhos acumulados. Para o diretor da Delara Agronegócios, Alê Delara, o clima foi o grande gatilho inicial desse movimento, mas o mercado já chegou a uma região em que precisa de notícia nova para seguir avançando. “Para continuar subindo, o mercado precisa de uma piora mais clara nos mapas climáticos ou de compras chinesas mais fortes”, disse ao Broadcast Agro.
Na quarta-feira, o contrato novembro recuou 5,50 centavos, ou 0,46%, para US$ 11,9225 por bushel. O farelo para dezembro caiu US$ 5,30, para US$ 311,20 por tonelada, enquanto o óleo no mesmo vencimento subiu 225 pontos, para 69,52 centavos por libra-peso. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmou uma venda avulsa de 472 mil toneladas de soja para a China, sendo 136 mil toneladas para entrega em 2025/26 e 336 mil toneladas para 2026/27. A operação limitou as perdas, mas não impediu o ajuste depois de dois pregões fortes de alta.
Na leitura de Delara, a arrancada do começo da semana partiu do clima. O modelo meteorológico que rodou no sábado indicava duas semanas de tempo seco e temperaturas acima da média, o que, somado ao feriado prolongado nos Estados Unidos e aos rumores de compras chinesas, impulsionou as cotações já na reabertura do mercado. Esse quadro perdeu força na quarta-feira, quando os mapas passaram a mostrar um cenário menos adverso. “O modelo que rodou ontem à tarde já mostra um clima menos adverso, então isso ajudou a segurar”, afirmou.
O complexo também tirou parte do embalo da soja. O petróleo disparou com o agravamento do quadro no Oriente Médio e puxou o óleo de soja, mas o farelo recuou com força, chegando a cair cerca de 2% em alguns vencimentos. Esse descolamento reduziu o ímpeto da Bolsa de Chicago e se somou à correção técnica natural depois de duas sessões de alta.
Do ponto de vista gráfico, Delara vê o mercado em uma região de resistência. Para sustentar uma nova perna de alta, a soja precisa de um fator adicional mais forte. Na avaliação dele, os volumes de compra chinesa ainda não configuram um programa amplo o suficiente para garantir continuidade do rali. “A compra de segunda-feira foi pouca. Hoje foram 400 mil toneladas, mas foram cinco barcos só para o ano que vem. Nós precisamos de compras mais volumosas”, afirmou.
Essa dúvida também aparece na avaliação do vice-presidente de vendas da StoneX, Bertrand Oosterle. Para ele, a questão central é saber se a China está apenas realizando operações pontuais ou se começou um fluxo mais regular de compras da safra nova americana. “Se virmos compras regulares, as pessoas tendem a pensar que o rali pode ser sustentado. Se não virmos essas compras regulares, o mercado deve respirar”, disse ontem, em transmissão.
Quanto ao clima, a atenção segue concentrada na bolha de calor que atinge o Meio-Oeste durante a fase de floração da soja, que já cobre 34% da área. O USDA informou nesta semana que 64% da safra estava em condição boa ou excelente, queda de 1 ponto porcentual ante a semana anterior. Se o calor voltar com menos chuva prevista, o suporte pode ser renovado. Se os mapas continuarem a aliviar, a tendência é de realização.
O Wasde de sexta-feira, porém, não deve mudar muito esse quadro, na avaliação de Delara. As lavouras ainda estão em pleno desenvolvimento, as condições seguem razoáveis e a área não sofreu alteração importante em relação ao relatório de março. “Não espero muita coisa para esse relatório de julho”, disse. Se houver ajuste mais relevante, a percepção no mercado é de que ele tende a aparecer mais adiante, possivelmente no relatório de agosto.